(Fonte: Micro Sistemas-Ed.Especial Setembro/1985)
A Microinformática no Brasil- 1985

 Nascida nos Estados Unidos em 1974, a Microinformática logo espalhou-se pelo mundo. No Brasil, encontrou solo fértil e, em cinco anos, já exibe um sólido mercado.

Alta resolução a cores; discos Winchester com capacidades de 10, 20, 50 Megabytes ou mais; bancos de dados relacionais; programas interativos; impressoras laser; software integrado com display em janelas e controle por mouse; redes de computadores que permitem a comunicação entre máquinas de diversos portes ou mesmo o acesso a bases de dados localizadas nos mais distantes lugares e capazes de oferecer os mais variados tipos de informação. Parece mentira, mas há pouco mais de 10 anos tudo isso não passava de um sonho...

A informática evoluiu muito em pouco tempo, numa rápida sucessão de avanços técnicos, dentre os quais aquele que já pode figurara entre as principais invenções deste século: o microprocessador.

Foi esse pequeno componente – um computador inteiro numa pastilha de silício de alguns milímetros quadrados – que trouxe a informática à altura dos nossos bolsos, possibilitando a existência do sistemas compactos, poderosos e simples de usar. Foi também que tornou possível dotar de "inteligência", a baixo custo, uma variedade de equipamentos, criando o que hoje conhecemos sob a denominação genérica de automação. E graças a ele, muita coisa também mudou neste mundo, a começar pelas relações dentro da própria indústria de informática.

EUA: OS PRIMÓRDIOS

Até a chegada do chip, o computador era objeto de uso privativo dos setores estatal e corporativo, produzido por grandes empresas e vendido a tantas outras grandes organizações. Com o advento dos microprocessadores, contudo, tornou-se barato e simples construir um computador, o que abriu a oportunidade para que muitos técnicos com poucos recursos, mas bastante Know-how – pudessem montar suas próprias empresas.

Geralmente engenheiros (em sua maioria autodidatas) esses técnicos criavam projetos que, se em poucos casos eram limpos e eficientes, segundo os bons padrões industriais, no geral apresentavam um acabamento descuidado, cheio de jumps e gatilhos. Em muitos casos, também, a industrialização efetiva desses computadores ou periféricos era financiada com os pagamentos dos primeiros clientes, que compravam os produtos com base nos protótipos apresentados. Foi isso, por exemplo, o que ocorreu com a Apple, cujo primeiro lote de 50 máquinas encomendadas pela loja Byte Shop, de Montain View, teve que ser feito a toque de caixa para que Steve Wozniak e Steve Jobs pagassem os componentes comprados com um prazo de 30 dias para o pagamento.

A Microinformática nasceu, pois, como uma atividade marginal, realizada à sombra da indústria estabelecida que, para sorte dos pioneiros, somente anos mais tarde iria despertar para o novo e gigantesco mercado que então começava a se formar.

O efetivo início da Microinformática no mundo deu-se no ano de 1974, quando surgiram os primeiros microprocessadores de 8 bits: Intel 8080 e Motorola 6800. Com base no chip da Intel, Nat Wadsworth projetou e comercializou ainda em 74 o primeiro micro fabricado nos EUA, o Scelbi-8H.

O ano seguinte, 1975, marca o surgimento da primeira loja, dos primeiros clubes, dos primeiros fabricantes de acessórios e de diversos micros, como o IMSAI, o Sphere, o SWTP 6800 e o "best-seller" Altair 8800 para o qual, aliás, Bill Gates e Paul Allen, fundadores da Microsoft, escreveram, ainda nesse ano, o primeiro interpretador BASIC.

Os primeiros micros eram em geral vendidos sob a forma de kits e se constituíram de uma placa com o microprocessador, menos de 1 Kbyte de memória e um teclado com, no máximo, 20 teclas. Em muitos casos, porém, a comunicação com a máquina era feita apenas em código binário através de chaves localizadas no painel. Nas máquinas mais sofisticadas, podiam-se utilizar como periféricos gravadores cassete e velhos teletipos. Todos os computadores, porém, eram fornecidos completamente se software e só quando os preços das memórias RAM e ROM começaram a baixar é que os fabricantes passaram a incorporar aos seus produtos monitores e sistemas operacionais residentes, além de maiores memórias para o usuário.

A ARRANCADA DO SOFTWARE

O mercado começou a se expandir em ritmo acelerado e em dezembro de 1976 – ano que viu surgirem os microprocessadores Zilog Z80 e MOS Technology 6502, o Apple I e o sistema operacional CP/M – já contavam-se 100 empresas e 132 clubes. Em 1977 o número de fabricantes já passava dos 200 e, dentre os computadores lançados nesse ano, constavam o Pet, da Commodore, e dois grandes conhecidos nossos: o Apple II e o TRS-80, da Radio Shack. Esses sistemas aliás, viriam em pouco tempo modificar a tendência do mercado dos kits para os equipamentos já montados.

Ainda em 1977 a Microsoft anunciou a sua versão das linguagens BASIC e Fortran. Começava, nessa época, a arrancada do software, que iria se consolidar em 1978 com o surgimento de, pelo menos, 20 empresas fornecedoras de linguagens, utilitários, jogos e aplicativos.

Este ano que marcou o surgimento do primeiro pacote de dados para micros, o Watsit, da primeira planilha eletrônica, o lendário VisiCalc e o do primeiro serviço de comunicação de dados, o Dial-A-Program (software por telefone), também presenciou o surgimento de um produto que iria trazer um formidável impulso à indústria de software: os drives de 5 ¼’, anunciados tanto pela Apple quanto pela Radio Shack.

Em termos empresariais, as coisas também começaram a mudar profundamente. Conforme vimos, as empresas do setor geralmente criadas por técnicos que, graças as suas habilidades e às condições favoráveis do mercado, conseguiam rapidamente formar prósperos empreendimentos. Como, porém, os seus conhecimentos de administração situavam-se geralmente muito abaixo do seu brilhantismo técnico, essas empresas padeciam, via de regra, de uma gestão caótica e a maioria delas não conseguiu sobreviver muito tempo. Assim, a partir de 1979, com o acirramento da competição e a entrada das grandes firmas de eletrônica de consumo, quem não tivesse uma administração altamente profissional estava fadado ao fracasso. A concorrência, por outro lado, também levou as empresas de hardware e software a concentrarem os seus esforços em áreas específicas de atuação, tais como sistemas de uso pessoal ou profissional, software utilitário, aplicativo, de jogos, etc. Com isso, o mercado foi-se paulatinamente depurando – através do fechamento, fusões ou incorporações – de modo que, das centenas de empresas surgidas nos primeiros anos, somente algumas poucas conseguiam chegar aos dias de hoje.

Essa concentração acentuou-se ainda mais a partir de meados de 1981 com o lançamento do IBM PC. Um equipamento moderno, com UCP de 16 bits, fartura de software aplicativo e documentação de sistema aberta, em pouco mais de dois anos de fabricação com 500 mil unidades vendidas, o PC já se transformara no padrão para o segmento de uso profissional. Ao seu redor surgiu toda uma indústria de acessórios, periféricos e computadores compatíveis (os PC-likes), e mesmo quem não quis seguir à risca o projeto da Gigante Azul teve, pelo menos, que adotar o sistema operacional MS-DOS. Quanto às dezenas de fabricantes de sistemas profissionais em atividade no início da década, quem não se adaptou aos novos tempos, fechou.