(Fonte: Micro Sistemas - Novembro 1988)

Commodore Vic 20AMIGA A DIMENSÃO DO IMPOSSIVEL

     Quando a empresa canadense  Commodore, já famosa pela  qualidade dos micros VIC-20,  Commodore 64 e Commodore 128, resolveu lançar no mercado o microcomputador AMIGA, ela certamente já previa o sucesso da sua iniciativa. Mas o que ela não sabia é que este sucesso ultrapassaria as suas projeções mais otimistas e conduziria o AMIGA à posição ímpar de ser, atualmente, a melhor relação custo/ benefício em termos de microcomputador pessoal.
    Essa afirmação, que parece ter sido tirada de um folheto de propaganda do AMIGA, é fruto da própria realidade: por 580 dólares o AMIGA 500 (CPU com drive de 3,5 polegadas e mouse) coloca à disposição de qualquer usuário, recursos que parecem ter sido concebidos a partir da análise do impossível.
   Como se não bastasse a excelente resolução gráfica e o som estéreo com quatro canais, a Commodore cunhou uma expressão fantástica, que chocou os mais desavisados, ao classificar o AMIGA como "the real first multi-tasking home computer", isto é, o primeiro microcomputador doméstico realmente multitarefa.
    Pretensões à parte, a verdade é que o AMIGA se tornou um verdadeiro marco da microinformática mundial, ao trazer para qualquer ambiente, quer seja doméstico ou profissional, recursos até então presentes apenas em computadores dedicados, especialmente no campo da tecnologia de vídeo e de áudio.
    Mas para quem se encontra no Brasil e portanto distante da realidade da informática mundial, fica no ar uma certa perplexidade. Afinal, quem é realmente esta máquina chamada AMIGA?

DE MÃOS DADAS COM A TECNOLOGIA

   Amiga 1000 Em primeiro lugar, o AMIGA foi o microcomputador que se utilizou mais apropriadamente da técnica de interface iconográfica com o usuário, lançada pela Macintosh. Praticamente todos os programas que rodam no AMIGA se utilizam do mouse, incluindo o WORKBENCH, o seu sistema operacional.
    Isso torna a máquina extremamente amigável como o nome nos faz supor e, a nível de operação, incrivelmente simples. Isso se traduz no fato de que qualquer programa pode ser facilmente utilizado pelo usuário final que, se atento, pode até mesmo dispensar a leitura do manual de operação.
    A nível de configuração, a Commodore teve a ousadia de lançar três modelos diferentes: o AMIGA 500, AMIGA 1000 e o AMIGA 2000, cada qual visando uma faixa de público específica, dividida basicamente pelo seu poder aquisitivo.
    O AMIGA 500 vem com 512 Kb de memória RAM, sendo facilmente expandido para 1.Mb de memória. O AMIGA 1000 vem com 256 Kb, permitindo expansão para 512 Kb de memória. O AMIGA 2000 já vem com 1 Mb, podendo ser expandido para até 9 Mb de memória RAM.
    Essa diferença entre o AMIGA 1000 e os outros é explicada pelo fato de que o AMIGA 1000 era o projeto original da empresa AMIGA Inc. Este projeto foi comprado pela Commodore, que manteve as suas características originais e lançou o AMIGA 500 e o AMIGA 2000, com uma série de melhorias.

UM PC COMO BRINDE

    O AMIGA 2000 possui vários slots divididos em slots de AMIGA, slots de PC e um slot compartilhado AMIGA/ PC. Existe no mercado uma placa emuladora que compatibiliza totalmente o AMIGA com o PC. A compatibilidade não se dá apenas a nível de arquivos como no MSX, mas sim a nível de arquivos e programas.
    Essa placa chamada BRIDGE BOARD já vem com o processador 8088, com 640 Kb de memória e drive de 5 1/4". Colocada no slot compartilhado a PC BRIDGE BOARD permite que o AMIGA 2000 rode qualquer programa do PC sem perder as suas características. Através dos recursos de multi-tasking, o usuário pode abrir uma janela para rodar um programa de PC e outra para rodar um programa de AMIGA. O processamento é SIMULTÂNEO e em REAL-TIME, sem perda de velocidade.
    Além disso o usuário pode colocar qualquer placa de PC nos slots de PC do AMIGA 2000, que ela exerceráAmiga 2000 exatamente a função a que foi destinada, como se o AMIGA fosse apenas mais um PC compatível. Não bastasse esse brinde, já existe a AT BRIDGE BOARD que coloca um AT nas mãos de todo possuidor do AMIGA 2000, por uma fração do custo de um AT compatível.
    Muitos usuários ortodoxos do PC diriam que ainda falta um pequeno detalhe para ter um PC de verdade nas mãos: o disco rígido. A observação seria correta se não existisse a empresa Supra Corporation, que fabrica e comercializa discos rígidos externos para o AMIGA, com memória de 20, 30, 49, 60, 120 ou 250 Mb: memória para ninguém botar defeito.
    Infelizmente o AMIGA 2000 é o único da série a permitir a emulação de um PC por hardware - nem tudo é perfeito. Para os outros modelos resta a emulação por software através do programa PC Transformer da Simile Research. Embora essa alternativa continue permitindo a execução de virtualmente tudo o que existe para PC, o problema se traduz em perda da velocidade.
    Testado pelo SI do Norton Utilities, o PC Transformer acusou apenas 10% da velocidade de processamento de um PC, embora o programa tenha suposto que o processador fosse um NEC V-20, que é bem mais rápido do que isso. Essa velocidade praticamente inviabiliza a máquina para o processamento de informações mas permite a criação, desenvolvimento e teste de programas que serão executados em outro ambiente.
    0 curioso é que o ATARI ST, com o mesmo clock - 8,7 Mhz - e o mesmo processador, possui um emulador por software que dá 130% da velocidade de um PC. Das duas, uma: ou o emulador de PC da Simile é muito mal feito, ou a velocidade baixa faz parte de um acordo com a Commodore - o que é mais provável - para forçar a venda do AMIGA 2000 para os usuários que pretendam se utilizar da biblioteca de software do PC.
    Mas mesmo assim ainda é uma grande vantagem quando percebemos que por 580 dólares, qualquer possuidor de um AMIGA 500 está apto - pelo menos em hardware - para criar qualquer coisa para o PC.

ULTRAPASSANDO O MACINTOSH II

    Em termos de arquitetura interna o AMIGA trabalha com o microprocessador 68000 da Motorola, o mesmo do Macintosh, além de outros 4 co-processadores: o FAT AGNUS que controla a comunicação entre todos os microprocessadores, o GARY que controla os acionadores de disco, o PAULA para o processamento de som e o DENISE para o processamento de vídeo - batizar processadores é uma característica do mercado externo.
    Embora o Macintosh II use o mesmo tipo de interface homem/máquina (ícones e mouse) e possua o mesmo microprocessador, ele perde o AMIGA logo de saída devido à ausência do multi-tasking, isto é, não é possível rodar no Macintosh mais de um programa por vez.
    Além disso existe a questão da resolução gráfica do Macintosh e o seu preço. Com relação à resolução, o Mac e o AMIGA podem se tornar equivalentes, tanto em preto e branco quanto em cores. Mas quanto ao preço, nem é preciso falar muito. O AMIGA 500, com expansão de 512 Kb e monitor, custa aproximadamente 1000 dólares, enquanto o Macintosh II vai muito além disso, chegando mesmo a se constituir em uma pequena fortuna.
    O AMIGA é uma máquina "aberta", o que permitiu que outras empresas criassem uma série de periféricos para torná-lo imbatível. Já o mesmo não acontece com o Mac, o que restringe consideravelmente as suas aplicações. Outro fato é que o seu sistema operacional é extremamente dependente do mouse, pois só existe a interface iconográfica, o que traz alguns problemas; já o AMIGA permite input também por teclado, como o PC. Para quem não sabe, o Mac só ejeta o disco por software - não existe essa possibilidade no acionador. Em caso de falha o disquete fica "trancado", e só sai após a máquina ser desmontada com o auxílio de ferramentas que só a Apple possui.
    Mas se o Mac perde nesses pontos ele ainda consegue ganhar - por enquanto - na qualidade dos softwares para desktop publishing. Isso não seria nenhuma novidade, pois além do Mac ter sido criado antes do AMIGA, ele foi basicamente desenvolvido para atuar nessa área. Mas o Mac que se cuide, pois foi recentemente lançado para o AMIGA o programa PROFESSIONAL PAGE, cujas características são mais do que suficientes para desbancar o Mac neste seu último reduto.

A MEDIDA CERTA EM SOFTWARE

     Em termos de software, existe para o AMIGA basicamente tudo o que há para o PC, sem contar a própria biblioteca do PC. Existem gerenciadores de bancos de dados como o Superbase, que permite além dos bancos tradicionais, a criação de um banco de imagens de excelente resolução; planilhas como a Maxiplan, que traça vários tipos de gráficos simultaneamente, à medida em que os dados são alterados, e processadores de texto como o Pro Write 2.0, que permite a montagem de texto e ilustração, simulando um sistema de desktop publishing.
    A questão da acentuação em português não é problema para o AMIGA, uma máquina que chega até a possuir versão com teclado e manual em braille para o uso por deficientes visuais. Todos os acentos podem ser facilmente escritos em qualquer programa - até mesmo no DOS. Eles são obtidos através de uma combinação de teclas
    Fases de construção de um sólido com o Sculpt 3D fácil de memorizar: a tecla ALT em conjunto com as teclas F (acento agudo), G (crase), H (circunflexo), J (til) e K (trema). ALT+F+A resulta em um "Á".
    O número de programas de cada tipo é bem mais variado do que os poucos exemplos mencionados. Não faltam nem os integrados como o The Works, com processador de textos, planilha, banco de dados, protocolos de comunicação e utilitários de impressão.
   
Mas é na área do som e da imagem que o AMIGA abre novos horizontes e surpreende até o usuário mais pragmático. O editor musical Sonix II, além da emissão de acordes através da pressão de várias teclas do micro, como num instrumento de verdade, permite a composição em partitura de qualquer tipo de música, incluindo a percussão. A quantidade de instrumentos que o Sonix II simula é bastante ampla e qualquer música nele criada pode ser utilizada como abertura de um programa ou trilha sonora de uma animação.
  
Em matéria de animação de sólidos, o Videoscape 3D permite a realização de praticamente qualquer vinheta ou simulação para a utilização em produções de vídeo. E é exatamente na área do vídeo que reside o maior potencial do AMIGA.

THE REAL FIRST VIDEO PRODUCER

    Devido à sua arquitetura aberta e ao potencial do seu processador de vídeo, o AMIGA inspirou um grande número de fabricantes de periféricos e produtores de software. É graças a isso que, em se tratando de produção de vídeo, o AMIGA apresenta uma série de facilidades e ferramentas jamais reunidas em uma só máquina.
    Existem geradores de sincronismo - genlock - dos mais variados fabricantes; digitalizadores como o Digiview para imagens planas e o Frame-Grabber para imagens geradas por um videocassete; programas como o Video Titler, TV Text, TV Show, Sculpt 313, The Director e o já mencionado Videoscape 313, além de editores gráficos como o Deluxe Paint, o mais famoso.
    Uma das maiores comodidades, e que comprova a seriedade da Commodore, foi a padronização de arquivos. As telas gráficas obedecem a um único padrão, o I F F - Interchange File Format. Isso significa que qualquer tela pode ser carregada por qualquer programa, independente de ter sido criada nele ou não. Dessa forma surge uma versatilidade inigualável, pois todos os programas gráficos contribuem, cada um com as suas particularidades, para produzir um único gráfico que acaba atingindo um alto grau de qualidade artística.
    Esse padrão de arquivos se estende para o som digitalizado e as animações. De acordo com o padrão, um arquivo de animação não contém os diversos frames que a compõem, mas sim as diferenças entre um frame e outro. Só quem possui winchester é que pode gravar uma sucessão de frames, já que isso resulta em um arquivo de proporções imensas.
    Com todas essas facilidades fica fácil perceber por que um grande número de produtoras de vídeo de outros países já considera a aquisição de um AMIGA - de preferência o AMIGA 2000 - como um passo inevitável para quem tem de oferecer o máximo de serviços e qualidade, em mercados altamente servidos e competitivos.