(Fonte:
CPU MSX/Amiga - Ano 3 n.30 - 1992-? )
Os caminhos do
Amiga no Brasil
São Paulo, setembro de 1992. Um dia absolutamente comum na vida do
paulistano, com os engarrafamentos de sempre, a poluição de sempre, as
intermináveis filas bancarias e aquela expressão vazia no rosto das
pessoas, um semblante nem cordial nem agressivo, apenas alheio a tudo o
que se passa a seu redor. Em suma, um dia perfeitamente normal para o
homem comum, que é forçado a conduzir a vida como uma iguaria com
gosto duvidoso do fast-food.
Mas para algumas pessoas aquele dia nada teve de comum, insípido ou
corriqueiro. Para elas havia algo incrivelmente fantástico acontecendo,
Uma daquelas coisas que, mesmo quando muito esperadas, causa um certo
estupor quando constatada com os próprios olhos: um Commodore Amiga
"made in Brazil".
O local exato da incrível aparição foi num estande imponente que ficava
na esquina das ruas C e D, no Palácio do Exposições do Anhembi, durante
o mais importante evento deste ano na área da microinformática: a
COMDEX/SUCESU SP South América 92. O estande era a da empresa PCI
Componentes da Amazônia. Além de lançamentos perfeitamente naturais,
já esperados em qualquer feira de informática nacional -laptops, mouses,
calculadoras a multiplexadores - lá estava o Commodore Amiga 600), o mais
recente lançamento da linha Amiga, considerada por muitos a vice-campeão
de vendas no mundo (primeira colocada absoluta na Europa, com mais de um
milhão de unidades vendidas somente na Alemanha).
Graças a um acordo inédito no mercado nacional de informática, firmado
em 19 do agosto deste ano, a Commodore Eletronics autorizou a montagem,
fabricação e distribuição por parte da PCI na Zona Franca de Manaus,
de toda a sua linha do computadores - incluindo também os AT compatíveis
da Commodore, computadores de alta qualidade praticamente desconhecidos
pelo público brasileiro. O Amiga 600 é o primeiro modelo na linha de
montagem, justamente por ser o micro onde a Commodore, está apostando
todas as suas fichas.
A
revolução silenciosa
Desde 1985 o Amiga vem sorrateiramente invadindo o mundo e encantando
usuários de outros microcomputadores. Esta revolução silenciosa fez com
que o Amiga esteja hoje presente em todo o mundo, desde um quarto de
criança, onde seus jogos exclusivos educam e divertem, até em centrais
de animação gráfica de poderosas redes de televisão.
O Brasil é um bom exemplo desta revolução. Mesmo com reserva de mercado
e ausência de fabricantes, o usuário brasileiro não teve dúvidas em
apelar para a "importação informal". As estimativas indicam a existência
de mais de 7 mil equipamentos em funcionamento no país, operados por
usuários de todos os tipos, desde o adolescente "amalucado"
até o engenheiro criativo, passando por usuários ilustres como Hans
Donner, que dentre outros equipamentos também se utiliza do Amiga durante
a etapa de criação de suas fantásticas vinhetas de abertura de
programas para a Rede Globo de Televisão.
Ao contrário do que normalmente acontece, o Rio de Janeiro vem liderando
as estatísticas, com São Paulo em segundo e Rio Grande do Sul em
terceiro lugar. E isso se aplica tanto ao número do usuários quanto as
iniciativas empresariais voltadas para o Amiga. Apenas como exemplo, os
dois primeiros livros sobre o Amiga em língua portuguesa foram lançados
por editoras cariocas e a primeira - e ainda única - softhouse que
comercializa somente produtos originais, desenvolvidos por brasileiros,
também se, encontra no Rio de Janeiro. Isso sem contar o primeiro clube
do usuários de Amiga e a primeira revista a dedicar um caderno exclusivo
para usuários deste microcomputador.
Tudo isso certamente pesou na decisão da PCI em "brigar" para
trazer o Amiga para o Brasil. Segundo Paulo Roberto Mattos, Presidente da
PCI, a "...Commodore no Brasil significa mais uma etapa vencida na
evolução do nosso mercado, principalmente as vésperas da abertura da
reserva.". Para Luiz Santos o outro signatário do acordo,
representando a Commodore International, sediada em Portugal, "...a transferência
de nossa tecnologia e postura no mercado internacional, ocorre em função
da crença no grande potencial do mercado brasileiro.". Mas cá entre
nós, por mais fantástico que seja o Amiga como investimento para
qualquer empresa, esta é a primeira vez que um lançamento em termos de
hardware chega ao Brasil a encontra uma comunidade do usuários já
formada e em franca expansão. Só mesmo um louco não consideraria este
fato.
E no que depender da PCI esta comunidade vai se ampliar em muito, já que
a empresa afïrma que irá investir inicialmente 1 milhão e meio de
dólares em marketing, uma verba nada desprezível para o nosso mercado.
Alguns rumores indicam até a possibilidade de promoções conjuntas com
gigantes como a Coca-Cola, mas ainda é cedo para afirmar que o Amiga
estará presente em tampinhas do refrigerante.
O AMIGA
NACIONAL
O Amiga 600, que vem sendo garbosamente chamado de "estação
gráfica" pelo seu fabricante nacional, opera já com o AmigaDOS 2.0
e a versão 2.04 do Workbench. A configuração básica que será
comercializada, terá memória de 512 Kb de RAM, expansível até 2 Mb na
placa interna. A CPU terá o 68000 com 7.09 MHz de clock, saída direta
para televisores nacionais (via RF), áudio estéreo com quatro canais,
drive de 3,5" e mouse, num console compacto, menor que o do Amiga 500
(36x24x7 cm) e com menos de 4 Kg de peso. A bem da verdade, sua aparência
lembra mais o Commodore 64 que o
Amiga 500.
A versão do Amiga 600 apresentada na Europa, possui um pequeno conector
chamado PCMCIA, que abre as portas da máquina para a nova tecnologia
Flash RAM, da empresa americana Intel, que permitirá a armazenagem de
grandes massas de dados em pequenos cartões magnéticos, não voláteis.
Este slot permitirá lamhém que as produtoras de software forneçam seus
produtos nos cartões magnéticos, evitando assim, que cópias ilegais se
alastrem pelo mercado. É de se esperar que estas características sejam
mantidas na versão nacional.
O preço de lançamento será inferior a mil dólares - provavelmente na
faixa dos oitocentos dólares. Mas como estamos no Brasil, preço "de
verdade" só mesmo quando este espécime ainda raro de micro puder
ser avistado nas prateleiras de um dos 69 distribuidores já credenciados
no país.
Mas o Amiga 600 não é a única conquista. A PCI promete para breve -e
não custa dar um crédito de confiança - o lançamento do Amiga 2000 e
Amiga 3000, montados no território nacional, além do CDTV, a estação
multimídia da Commodore, com lançamento previsto para o final deste ano.
O CDTV na verdade, é uma máquina Amiga, acoplada a um CD ROM, o que é
uma característica básica para qualquer plataforma multimídia. Além
disso, o CDTV pode "tocar" CDs comum, de áudio, sem qualquer
restrição. A entrada deste equipamento no Brasil e em outras partes do
mundo, permitirá que a Commodore avance mais um passo na sua
"guerra" contra a Phillips, que tenta a qualquer custo
introduzir o seu próprio formato do CD ROM, o CD-I.
O esforço da empresa PCI certamente merece o apreço do todos nós, mas
não se deve esquecer de dar o devido crédito a uma outra empresa, a
paulista Multisoft, que tendo a frente Tom Shen, um verdadeiro apaixonado
pelo Amiga, foi responsável pela iniciativa pioneira em introduzir o
Commodore Amiga no país, através de palestras de esclarecimento e da
importação legal dos primeiros Amiga vendidos a empresas nacionais.
Tom Shen conheceu o Amiga em 1987, quando estava em Nova York. Tratava-se
do um Amiga 1000, de saudosa memória por parte dos usuários pioneiros. A
Multisoft já atuava no mercado desde 1985, mais propriamente na área de
treinamento de jovens estudantes. Foi o encantamento de Tom pelo Amiga que
o conduziu na busca de um contato com a Commodore.
A despeito de todas as dificuldades que existiam na época, a Multisoft,
com sua proposta de planejar o mercado para a Commodore no Brasil, para
permitir a sua participação ao final da reserva de mercado, conseguiu o
que parecia impossível. "...Propusemos uma estratégia de construir
inicialmente uma imagem mais profissional do Amiga, mostrando ao público
consumidor as suas propriedades técnicas. Foi desta forma que a Commodore
se interessou por nossa proposta.". Ao dizer estas palavras, Tom não
consegue esconder o orgulho de ter sido bem sucedido onde o normal seria
uma fragorosa derrota.
A presença constante de Tom Shen no estande da PCI, deixou bem claro para
todos o quanto a Multisoft foi importante para a aproximação da PCI com
a Commodore. Além disso ele é uma pessoa preocupada não só com a existência
do um Amiga nacional, como também tem a sua atenção voltada para o
Software. Como o próprio Tom Shen afirma, "...uma plataforma sui-generis
coma o Amiga precisa constantemente de evolução do software. Se os
autores não recebem a compensação econômica necessária, acabam
desistindo de escrever programas para o Amiga. Temos o caso real do
próprio Dan Silva, autor do melhor software de desenho e animação, o
Deluxe Paint. Infelizmente este é um dos programas mais copiados. Sendo
assim o Dan Silva acabou sendo atraído pela Autodesk (criadora do
Animator) para desenvolver um software com o mesmo potencial do Deluxe
Paint IV para plataforma PC. Se os usuários do Amiga realmente gostassem
do se micro, não deveriam dar amparo à pirataria, para que autores do
programa. como o Dan Silva e outros, possa continuar a oferecer programas
espetaculares para o Amiga. A pirataria prejudica a máquina e, por
extensão, todos os usuários.
Tom Shen, como muitos outros entusiastas, acredita que o Amiga terá um
grande sucesso no Brasil, por permitir que iniciantes em computação
obtenham resultados espetaculares em muito pouco tempo. E é graças a
ele, Multisoft, a PCI e a outras empresas que ainda surgirão, criando ou
importando periféricos, importando ou desenvolvendo software original,
que os caminhos do Amiga no Brasil certamente conduzirão o país a uma
nova etapa no seu desenvolvimento, onde máquinas poderosas, de custo
reduzido e apoiadas por software de alto nível, estarão ao alcance dos
interessados em transformar a "cultura da informática" em algo
realmente viável e produtivo para todos.
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