(Fonte: Micro Sistemas - Março 1990)

MacintoshMACINTOSH - O PECADO ORIGINAL DA MAÇÃ

            O nome lembra a figura de um venerável senhor de barba branca e saiote colorido, tocando gaita de fole na paisagem lírica das terras altas da Escócia. Mas a licença poética acaba aqui: trata-se, na realidade, da arma letal com que a Apple Computer pretendeu ferir de morte um gigante azul chamado IBM, que teve a ousadia de investir no florescente mercado dos microcomputadores.  
            Se o objetivo inicial não foi ainda alcançado e o gigante continua o "dono da bola" no campeonato mundial da informática, isso não significa que o Macintosh (ou simplesmente Mac, como é carinhosamente tratado por seus usuários) tenha se tornado um fracasso: ao contrário.  

            Por trás da bravata de destruir o PC da IBM, havia um objetivo mais realista, que era salvar a própria Apple do fracasso retumbante do Lisa, um micro de dez mil dólares que se tornou um Titanic digital para iceberg nenhum botar defeito. Ou a Apple dava a volta por cima e lançava uma máquina que a reconduzisse ao seu pedestal original, ou seus técnicos, além do desemprego, teriam que amargar por toda a eternidade as risadas irônicas de Stephen Wozniac e Steve Jobs, os ex-patrões que fizeram da maçã colorida a mais respeitada marca de micro computadores do mundo. Mas como diz o ditado, ri melhor quem ri por último. Graças ao Mac a palavra fracasso foi abolida dos dicionários da Apple Computer e a IBM se viu pela primeira vez realmente ameaçada. E o gigante só não caiu porque na pressa de lançar o Mac, a Apple cometeu pequenos erros que resultaram em grandes falhas na sua estratégia de comercialização. 

A GERAÇÃO MACINTOSH

            O primeiro Macintosh foi realmente uma grande surpresa para o mercado da microinformática:uma máquina robusta, compacta e de design extremamente inovador - CPU, drive de 3 1/2" e monitor incorporados em um gabinete de dimensões reduzidas e aparência agradável, um teclado simples e prático e a onipresença de um pequeno periférico chamado mouse, que viria revolucionar a interação entre o usuário e a máquina, redimensionando o conceito de entrada de dados e tornando a operação tão intuitiva que era possível até mesmo abrir mão dos manuais de operação dos programas.
            Mas o susto da IBM passou logo. O Mac tinha dois pecados que, para as necessidades dos usuários de então, acabariam dificultando a sua venda e facilitando a caminhada dos interessados em direção ao PC: a tela diminuta do monitor e a ausência de disco rígido para o equipamento.
            De nada adiantava ser uma máquina de 16-32 bits (contra os 8-16 bits do PC) e possuir 1 Megabyte de RAM, se a memória de massa se resumia a um único acionador de discos de 3,5" com 800 Kb por disco. Para tratamento de arquivos faltavam os vários Megabytes de disco rígido com que os PCs encantavam os usuários.
            Além disso a arquitetura da máquina era incrivelmente fechada, com vários chips customizados e um fator zero de clonabilidade. Já se sabe hoje que essa estratégia afasta do mercado as outras empresas que, criando e desenvolvendo periféricos e programas, acabam beneficiando a performance de vendas de qualquer equipamento. O curioso é que uma desconhecida empresa de um remoto país chamado Brasil conseguiu um milagre de engenharia reversa e criou o primeiro e único clone do Mac, abalando de tal forma a Apple que ela esqueceu momentaneamente a IBM e voltou toda a sua artilharia para as costas brasileiras e matou o "bastardo" no berço. Coisas do futebol.
            Mas independente das falhas restava no primeiro Mac um número bem grande de virtudes. Para promover o Mac a Apple contava com a sua facilidade de interagir com o operador e a sua capacidade gráfica. E foi por aí que o Mac começou a fazer história, a despeito do ridículo som de gongo chinês com pigarro que o usuário ouvia a cada vez que dava partida na máquina. O caminho normal do Mac foi a mesa da secretária e o Desktop Publishing, áreas onde ele causou uma revolução em caráter irreversível.  

Mac SEO SURGIMENTO DO MACINTOSH II

            Foi com o Mac II que a Apple deu o seu primeiro passo para acuar a IBM que tenta fazer do PS/2 a verdadeira máquina do juízo final. 0 Mac II, na faixa dos cinco mil dólares custa mil dólares menos que o PS/2 modelo 80. O Mac II vem com disco rígido de 40 Mb, memória RAM inicial de 1 Mb com capacidade de expansão para 7 Mb na placa-mãe e até 2 Gb (sabe quanto é dois Gigabytes?) se expandido através de interfaces.
            O clock é o mesmo do PS/2 (16 Mhz) mas o microprocessador é o Motorola 68020, um verdadeiro mestre em endereçar memória. O Mac II vem com coprocessador aritmético incluído (68881 da Motorola), possui seis slots de expansão,  teclado no estilo Apple de oitenta e uma teclas, resolução de 640x480 pixels, opção para monitor monocromático de alta resolução ou RGB também de alta resolução. Isso sem falar no mouse, no som estéreo amplificado, na arquitetura aberta desenvolvida pelo Michigan Institute of Technology e nos sistemas operacionais System, Multifinder e Hypercard que acompanham a máquina, sendo o Hypercard o representante do maior avanço já obtido por qualquer empresa de microcomputadores. É ver para crer.
            Mas o Mac II foi apenas o divisor de águas. A família Macintosh hoje possui o Mac Plus, o Mac SE, o Mac II, o Mac IIx com 4 Mb de RAM inicial e disco rígido de 40, 80 ou 160 Mb (oito mil dólares), o Mac IIcx, já com o microprocessador Motorola 68030 e coprocessador 68882 e compatibilidade com o software do Mac II e do Mac IIx, disco rígido de 80 Mb e acionador de 3,5" de 1.4 Mb, capaz de ler e gravar nos formatos MS-DOS, OS/2 e ProDOS. A unidade de paginação de memória permite a utilização em multitarefa e o conjunto alcança um preço de apenas sete mil dólares.
            0 último lançamento é o Mac SE/30, uma máquina compacta como o Mac SE, mas operando em velocidade 4 vezes superior através do 68030. 0 coprocessador aritmético 68882 permite uma velocidade de cálculo em ponto flutuante 100 vezes superior ao modelo SE. Isso sem falar que o SE/30 trabalha com o mesmo acionador de disquetes do Mac IIcx, com 1.4 Mb e capacidade de leitura e gravação nos sistemas operacionais do PC. Com disco rígido de 80 Mb o Mac SE/30 custa a bagatela de seis mil dólares: não há PS/2 que resista.
            A ameaça para a IBM é muito grande. Nem mesmo o reconhecimento das virtudes do Mac que induziram à criação do software Windows da Microsoft, na tentativa de tornar o PC tão intuitivo quanto o Mac, foi capaz de influir na decisão de compra do usuário. O Windows é apenas um arremedo de software quando comparado ao sistema operacional do Mac, atestando que o PC jamais chegará lá. Nem ao menos se aproximará de máquinas como o Amiga da Commodore, que conseguiu dar ao mouse a mesma potencialidade que o Macintosh patenteou.

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