(Fonte:
MCI - www.mci.org.br)![]()
A
pedido do MCI (www.mci.org.br), o
depoimento a seguir foi enviado em janeiro de 2002 por Alda Campos,
fundadora e primeira editora responsável da revista. Segundo Alda Campos,
assim foi à história da criação da revista Micro Sistemas. Micro
Sistemas - a primeira revista brasileira de microcomputadores (de verdade
!) No
final de 1980, um homem chamado Aldenor Campos (meu pai) entendeu a importância
que teria a área dos microcomputadores. Na época, ele tinha uma empresa
chamada Nabla, prestadora de serviços de programação (o chamado
bureau), cujo principal cliente era DNER. A
empresa ia bem, e Campos resolveu investir no setor. Convenceu seus sócios
a criar duas empresas: uma (chamada Del) para fabricar microcomputadores,
especificamente um clone do Apple; e outra para vender microcomputadores,
a Computique, que ele queria que fosse a primeira butique de computadores
do Brasil (o que de fato aconteceu). Ele
"dividiu" a empreitada entre os sócios, e pediu-me (recém
formada em economia e jornalismo) que viajasse aos Estados Unidos (Califórnia),
visitando e fotografando lojas de computador, apurando tudo que eles
vendiam e como o faziam, e que depois participasse ativamente dos
trabalhos de preparação da Computique, para a qual uma loja fora alugada
no shopping Cassino Atlântico, Posto 6, Copacabana, Rio. E
assim foi feito. Durante as obras da Computique, recebi o primeiro
"microcomputador" que venderíamos - um HP 85 - e resolvi
investigar um pouquinho. Nele, tive contato com a minha primeira linguagem
de programação - BASIC. Após
a inauguração, Campos me chamou para uma conversa. A loja não estava
vendendo como esperado, pois o público ainda não estava informado, não
havia cultura . Ele então me entregou uma pilha de revistas americanas e
disse: "Precisamos de algo assim no Brasil. Você é
jornalista". Lá
fui eu. Primeiro li tudo, percorri as bancas do Rio, indagando sobre a saída
das revistas estrangeiras. Entrevistei compradores e vendedores. Daí
convidamos um pioneiro do setor, o norte-americano Wayne Green, publisher
de várias revistas, para vir ao Brasil com todas as despesas pagas,
conversar conosco. Ele aceitou, e durante os primeiros meses do projeto
foi um bom conselheiro para mim. Após
alinhavar um conceito inicial, passamos para equipe. À frente da parte
administrativa, Ernesto Camelo, que futuramente viria a ser um dos
introdutores do Desktop Publishing no Brasil, com a empresa Textos &
Imagens. Na parte de jornalismo, recrutei ex-colegas da ECO (Escola de
Comunicação) da UFRJ, alguns dos quais ainda estão no setor. Como repórteres
Graça Santos (hoje Sermoud, na IDG Brasil) e Edna Araripe, atuando em
assessoria de imprensa. Como subeditor Paulo Henrique de Noronha, hoje
diretor de comunicações de uma empresa de telecomunicações (depois te
digo qual). Exceto
por meu humilde conhecimento do Basic, nenhum de nós era usuário de
micro, nem tinha muita idéia de para que servia. Para falar a verdade, tínhamos
pouca experiência também em reportagem, pois tínhamos nos formado em
80. Foi um verdadeiro learning by doing, como dizem nos EU. Nossa
primeira edição foi em 1981, se não me engano agosto, saindo para
circular se não me falha a memória numa feira da Sucesu, em Sampa. Nessa
feira também, a Del mostrou seu clone do Apple, antes da Unitron, porém
sem nunca ter levado o crédito do feito pioneiro, pois teve muitos
problemas e a máquina nunca passou de um protótipo. O
tempo de preparação da revista deve ter sido, portanto, uns quatro
meses, pra te responder a primeira pergunta. Sobre a idéia do título,
foi uma pensata conjunta entre eu e Campos. Em
termos de linha, era muito tentativa e erro, no início. Houve debate se,
além de Apple e TRS-80, deveríamos cobrir ou não os pequeninos micros
Sinclair, e ganhei a causa para inclui-los, o que foi afinal uma excelente
idéia, pois nos trouxe um público cheio de adrenalina, criatividade e
vontade de participar. Fora isto, somente a determinação do comercial
(contra a qual a redação lutou sem sucesso) de trazer na capa a foto de
empresários e gerentes do setor. O
moto era "name is news, and picture is even better". Sobre
as dificuldades, foram muitas. A experiência era pouca, a produção gráfica,
o papel, tudo era caríssimo, e a venda de publicidade no início não era
fácil. Por outro lado, a venda em bancas, que era desde o início um pré-requisito
para o sucesso do projeto mostrou-se penosa, esbarrando no esquema de
capatazias das bancas nas grandes cidades, e na pouca penetração fora do
eixo Rio-SP. Havia
problemas de dinheiro, pois o grupo não tinha propriamente centros de
receita/despesas fechados entre as unidades de negócios, e a atividade da
Del drenou muitos recursos. Também no nível pessoal não foi fácil,
tendo eu que enfrentar - e trabalhar muito muito extra - greve dos colegas
jornalistas por atraso de pagamento, algo que havendo mais experiência e
visão de mercado talvez pudesse ter sido evitado. A
receptividade no mercado, bem... eu diria que no início foi razoável. Os
leitores, por um lado, reagindo muito muito positivamente. Já os ditos
empresários olhavam com um misto de curiosidade e sarcasmo para aquela
menina jovem, que se dizia editora da primeira revista bla bla bla...
Marcar entrevistas em si não era problema, o problema era ser levada
"a sério" e, algumas vezes, deixar absolutamente claro, sem ser
grosseira, que não havia espaço para paqueras bobas. Quantas
cartas de colaboradores por mês???? Não sei, só sei que eram muitas,
mas muitas mesmo. Em todas as publicações nas quais trabalhei depois
como editora, sempre dentro da IDG, nunca vi nada chegar nem perto. Eram
garotos jovens, em sua maioria, telefonavam, escreviam, vinham ao Rio
especialmente para nos visitar... No início nos recusávamos a deixar uma
carta sem resposta. Eu mesma levava para casa e respondia muitas no final
de semana. Com o tempo isto tornou-se difícil. Mas sempre o depto cartas
dos leitores foi uma coisa séria na Micro Sistemas. Assim
como o laboratório. Uma das coisas que o Wayne Green sempre falava era
sobre a necessidade de um laboratório de testes. E isto fizemos. Os
fabricantes, em sua maioria, se recusaram a ceder equipamentos. Com sorte,
aceitavam fazer permuta por anúncios na revista, mas houve alguns que
fincaram o pé, e tivemos que comprar alguns. Consegui
formar um time bom de colaboradores, que na maioria das vezes escreviam
artigos e nos enviavam seus programas mais pelo prazer de participar do
que pela grana, que era pouca, mas sempre existia. Isto também foi uma
vitória nossa, pois na época, e até hoje em muitas revistas do setor,
simplesmente se paga o artigo com a abertura do espaço para o articulista
(na maioria das vezes um consultor ou empresário do setor), o que acaba
levando a popular venda do seu peixe. Nossos
colaboradores eram pessoas muito legais. Muitos deles, anos depois, quando
já na IDG editei a Mundo Unix (também merece estar no museu), a primeira
- e infelizmente única - publicação sobre sistemas abertos (na época =
Unix) do Brasil, tive a alegria de reencontrar. Não poderia me permitir
listar, pois isto levaria a omissões injustas, e também porque não me
recordo o nome completo de muitos. Mas vale a pena ressaltar o Orson (que
fez nosso famoso curso de Basic), o Zé Roberto, Rafael, Divino. E
obviamente Renato, um amigo/inimigo. A
entrada de Renato Degiovani em nosso meio, depois ficaria claro, foi um
divisor de águas. Ele começou a visitar a empresa, como quem não quer
nada, oferecendo ajuda, artigos e idéias. Após muito tempo e muita
troca, convidei-o para ficar, pois ele era um autodidata muito capaz
tecnicamente. Com o tempo, infelizmente fora da esfera técnica o seu
estilo acabou me desagradando, e houve muito desgaste. Acredito
que saí da revista em 1986 ou 87, não lembro mais (se você checar isto
me avisa...)*(MCI
- A última edição de Alda Campos como editora responsável foi em
Dez/1986. ed. nº 63), pois
recebi um convite interessante de Ney Seara Kruel (até então meu amigo e
concorrente, editor da Micro Mundo, da IDG) para assumir a editoria técnica
do jornal Data News, hoje chamado Computerworld. Como condição, pedi que
a firma me financiasse um mestrado em analise de sistemas, o que ele,
promovido a diretor geral do Brasil, prontamente aceitou. Então passei à
minha segunda linguagem: Cobol. Sai
da Micro Sistemas porque precisava de um novo projeto, um desafio. Escrevi
o editorial "Bye,
byte", que me gerou tanto feedback, que até hoje me emociono ao
lembrar. Embora soubesse que a Micro Sistemas era muito querida pelos
leitores, nunca imaginei que ela tivesse influenciado tanto a carreira de
tanta gente. Há menos de três meses recebi o mais recente dos frequentes
e-mails de algum desenvolvedor, que até hoje me contam, como se decidiram
por IT por causa da MS, e me perguntam: "afinal, por que você
saiu?". Em
meu lugar deixei Graça, na época já como minha subeditora, que levou o
trabalho ainda por algum tempo. Depois, quando ela resolveu sair,
convidei-a para ser repórter na IDG, aonde, entre idas e vindas, ela
fincou residência e hoje tem participação central. A
revista continuou com Renato no comando. A impressão que tive era que,
nessa época, voltou-se mais a jogos tipo adventures, que eram sua
especialidade. Anos depois, Renato me procurou, e fez uma espécie de
revisão de sua conduta na época. Eu também, afinal não se pode levar
esses desentendimentos tão a sério.... Essas gotas do oceano... Sai
da IDG no final de 1992, para uma longa viagem ao oriente. Vivo atualmente
na Alemanha com minha família. Além de manter meu contato com o mercado
brasileiro através dos artigos que escrevo para a revista e-manager, da
editora Telebusiness, trabalho com Web Programmierung aqui na cidade de
Freiburg. Tendo o desafio, além de ASP, Javascript e Java, de dominar o
alemão.... Meu carma são essas linguagens! OK?
Segue logo (desculpe o atraso) e se eu lembrar estorinhas da época,
envolvendo figuras daqueles tempos, como aqueles irmãos muito loucos da
Microdigital, que clonearam o Sinclair, eu volto a escrever. Por falar em
Sir Clive Sinclair, já tive a honra de tomar chá com ele, em sua residência
londrina... É isto aí. C'est
la vie... Fevereiro
de 2002. |
||
![]() |
![]() |
|
>