Os personagens dos anos 80
(Microcomputador Curso Básico - 1984)

          Em vários episódios da história, o ritmo das mudanças tecnológicas deixa as pessoas confusas. Mas, até hoje, nada - nem mesmo o progresso da aviação, desde Santos Dumont até o pouso na Lua- pôde se igualar à velocidade da revolução microeletrônica. O progresso, dos microprocessadores primitivos até os projetos de 16 bits de hoje, dos primeiros microssistemas até os mainframes de mesa, levou apenas um decênio. E a velocidade do desenvolvimento continua crescente.
          Por volta de 1971 , diversas novas empresas fabricantes de chips da Califórnia concluíram que um computador poderia ser alojado num pedacinho de silício. Nessa época, não havia planos grandiosos para uma revolução, e não se falava em "tecnologia da informação". A idéia era produzir um computador pequeno a barato que pudesse ser usado no controle de máquinas industriais ou elevadores, e os primeiros microprocessadores desempenharam essa tarefa a contento.
          Uma das indústrias de chips, a Intel, é reconhecida como a produtora do primeiro microprocessador, denominado 4004. Os "quatro" no número referem-se a sua capacidade: era um processador de 4 bits que manipulava dados em blocos de quatro dígitos binários. Só podia usar pequenas quantidades do memória - o suficiente para um programa de controle de elevador, por exemplo.
          Em 1972, a Intel desenvolveu o chip 8008 - um processador de 8 bits - e alguns hobistas começaram a pensar em construir seus próprios computadores com o novo chip. As revistas americanas especializadas em montagens eletrônicas passaram a publicar projetos dessas máquinas. Embora elas não dispusessem de monitor com tela, teclado apropriado ou outros dispositivos sofisticados, podem ser consideradas os primeiros computadores domésticos. Foi de um desses projetos que nasceu o primeiro microcomputador comercial, o Altair 8800 vendido somente em forma de kit.
          No ano seguinte, surgiria o primeiro microprocessador "de verdade", o 8080, também da Intel. Operava com blocos de dados de 8 bits e podia manipular até 64 Kbytes de memória para programas maiores. Por essa época, outros fabricantes de chips começavam a concorrer com a Intel. O 6800 da Motorola, por exemplo, fazia o mesmo que o 8080. Tinha características semelhantes de hardware, mas precisava de instruções diferentes para funcionar. Foi nesse ponto que começaram os problemas de compatibilidade de software: os programas escritos para o 8080 não podiam ser processados no 6800 e vice-versa. 

           Ao mesmo tempo, outras empresas desenvolviam processadores semelhantes, entre elas a National Semiconductor, a Signestics e a Advanced Micro Devices. Mas o passo mais importante foi dado pela MOS Technology, onde trabalhava uma das principais personagens da história da computação, Chuck Peddle. Ele estava na MOS quando a empresa desenvolveu um processador muito parecido com o Motorola 6800, chamado 6500. A primeira versão era tão parecida que teve de sofrer algumas modificações, e o chip revisado recebeu afinal o nome de 6502. Peddle, com o know-how adquirido, passou-se para a Commodore - conhecida no Canadá por suas máquinas de escritório a calculadoras eletrônicas.


Chuck Peddle

          Ele entrou na empresa com a idéia de desenvolver um computador pessoal completo, com tela, teclado, cassetes para armazenamento de programas e demais recursos que um verdadeiro computador deveria ter - logicamente, tudo construído em torno do processador 6502. A máquina surgiu em 1976 com o nome de PET 2001, um nome simpático (significa mimo), escolhido para transmitir a idéia de que o computador não era avançado demais para o usuário doméstico.

 
A alma da empresa
Steve Wozniak projetou e construiu o primeiro Apple I na garagem de sua casa. Quando o desing foi modificado e posto numa caixa criando o Apple II, seu amigo Steve Jobs transformou o produto em sucesso comercial.

       Enquanto se lançava o primeiro PET, dois outros inovadores preparavam-se para comercializar uma máquina construída puma garagem, na Califórnia. Steve Wozniak sempre quis ter um computador e, entrando para o Homebrew Computer Club, viu que seu sonho poderia se realizar. Ele projetou um computador numa única placa de circuito impresso e, com seu amigo Steve Jobs, começou a fabricar esses equipamentos e vendê-los. Chamaram a placa de Apple I. Alojada numa caixa com um teclado, a máquina acabou transformando-se no mundialmente famoso Apple II. Surgiu logo após o PET de Peddle e propiciou o aparecimento de microempresas periféricas, fabricantes de hardware e software.
      A Tandy Corporation, do Texas, tinha idéias próprias para o pequeno mercado de computadores. Ela era, e continua sendo, fabricante de grande variedade de equipamentos eletrônicos, como aparelhagens de som, sintetizadores e rádios, vendendo-os em sua cadeia de lojas, a Radio Shack. O microcomputador representava uma extensão natural dessa linha de produtos. O resultado foi o TRS-80 Model 1, outro sucesso no mercado dos Estados Unidos.


Steve Wozniak

         TRS é a abreviação de Tandy Radio Shack, mas o 80 refere-se ao microprocessador usado - o Zilog Z80. A Zilog era mais uma nova empresa fabricante de chips, e tinha produzido um processador semelhante ao Intel 8080 com melhoramentos substanciais.
          Com o TRS-80 Model 1 tendo um microprocessador Z80, e o Apple II e Commodore PET um 6502, os microcomputadores começaram a apresentar diversidade em hardware. Mas com essa primeira possibilidade de escolha para o consumidor, vieram os problemas associados à incompatibilidade de máquinas a ao software não padronizado. O tipo de microprocessador usado nas primeiras máquinas é significativo porque o chip determina a escolha do software proveniente de terceiros. Enquanto o hardware se desenvolvia, também se estabeleciam padrões de software.
          Em 1972, um jovem chamado Gary Kildall era consultor da Intel. Sua empresa, a Microprocessor Application Associates, trabalhava numa linguagem de computador que os engenheiros da Intel poderiam usar para escrever software destinado aos novos chips. Kildall achou possível ligar um microprocessador com memória a uma unidade de disco flexível de 8 polegadas e a um teletipo, a fim de dar a cada engenheiro seu próprio computador. Mas a Intel preferiu continuar sua prática de partilhar uma máquina de grande porte entre seus engenheiros.
Kildall a seu amigo John Torode, em outra garagem da Califórnia, decidiram então montar por conta própria um sistema. Torode construiu o hardware para o disco flexível poder trabalhar com o processador e Kildall escreveu o software que capacitava o processador a controlar o disco. O programa foi chamado CP/M (Control Program/Microcomputers), nome derivado do trabalho de Kildall corn a linguagem de programação da Intel, a PL/M (Programming Language/Microcomputers).


 Gary Kildall
Os sistemas operacionais mais recentes são desenvolvidos por grandes equipes de programadores, mas o CP/M foi escrito por Gary Kildall sozinho. Até algumas das versões posteriores refletiam sua destinação original a um hardware grosseiro

          O primeiro sistema operacional de disco para micros foi logo adotado pelos fabricantes de hardware, que queriam instalar unidades de disco em suas máquinas. O software também influenciou o design: o CP/M só podia ser rodado pelos processadores 8080 e 8085 da Intel e pelo modelo parecido (porém mail avançado) da Zilog, o Z80. Em conseqüência, o Z80 tornou-se o chip padrão para qualquer máquina do tipo CP/M, e a compatibilidade do CP/M passou a ser a meta de todos os produtores de software.
          Além de operar sistemas, os microcomputadores precisavam de uma linguagem na qual as pessoas pudessem escrever seus programas. O Basic, desenvolvido no Dartmouth College, nos EUA, considerado uma linguagem fácil de ser aprendida, foi uma escolha óbvia.


Bill Gates

        Bill Gates, formado pela Universidade de Seattle, produziu um interpretador de Basic para microcomputadores, um programa de tradução que cabia num chip de memória limitada e podia ser incorporado a uma máquina doméstica. A empresa de Gates a Microsoft tornou-se expoente na produção de linguagens, tanto quanto a Digital Research no desenvolvimento de sistemas operacionais - e seu futuro ficou assegurado.
Com esse desenvolvimento, os avanços em hardware e software aplicativo seguiram o mesmo ritmo. Dan Bricklin a Bob Frankston produziram o primeiro programa de folha eletrônica, o VisiCalc, em sua empresa Software Arts. Distribuído pela Personal Software no Apple II, tomou-se o pacote gerador de aplicações mais vendido de todos os tempos, a para enfatizar sua ligação com o produto, a Personal Software mudou seu nome para VisiCorp. O WordStar, produzido pela MicroPro de Seymour Rubinstein, foi o maior sucesso de vendas no mercado de processadores de palavras compatíveis com o CP/M.


Sir Clive Sinclair
Seguindo a linha inovadora de seus produtos -calculadoras, rádios em miniaturas, aparelhos de TV de bolso e relógios digitais-, o sucesso de seus microcomputadores (ZX80, ZX81 e Spectrum) valeu-lhe o título de nobreza em 1983.

 Herman Hauser
Os pequenos Acorn
A contribuição de Chris Curry e Herman Hauser (como designers e diretores dos computadores Acorn) foi valorosa. Seus micros, como o BBC, são considerados marcos fundamentais na Inglaterra

  Chris Curry








         O hardware em que esses pacotes eram executados tomou-se mais barato a mais potente. Adam Osborne, que começou como escritor técnico, jornalista e editor de software, depois de se mudar da Inglaterra para os Estados Unidos lançou um computador de uso comercial de grande sucesso, com enorme quantidade de software caro, incluído no preço bastante competitivo do sistema. O inglês Sir Clive Sinclair estabeleceu novos níveis de preço com os ZX80, ZX81 e ZX Spectrum, possibilitando que milhões de usuários tivessem acesso pela primeira vez a microcomputadores.
          A partir de 1982, os padrões em matéria de micros foram estabelecidos pela IBM, com o IBM PC. Essa máquina tem obtido grande sucesso junto ao público. Quase todas as softhouses e os fabricantes de periféricos estão produzindo material para o PC, o que, por sua vez, incentiva mais e mais pessoas a escolherem o equipamento.
          O IBM PC reúne vários implementos pioneiros dos primórdios da indústria de microcomputadores. O microprocessador provém da Intel, que criou essa tecnologia; os sistemas operacionais são da.Microsoft de Bill Gates, diversificando as linguagens, e da Digital Research de Gary Kildall; e dois dos primeiros pacotes de software colocados na máquina foram o VisiCalc e o WordStar.
Steve Wozniak a Steve Jobs dirigem a Apple, que faz concorrência direta à IBM, a depositam as esperanças da empresa na tecnologia revolucionária do Lisa a do Macintosh (uma versão reduzida do Lisa com preço em torno de 2.500 dólares). Chuck Peddle fundou sua própria empresa, a Sirius, apoderando-se de grande fatia do mercado inglês antes da chegada da IBM, mas depois disso a empresa passou a enfrentar dificuldades financeiras.
Mas, com certeza, Peddle voltará. A curta história do microcomputador mostra que seus criadores são também os sobreviventes - mesmo quando as multinacionais tentam assumir a direção do jogo.


Adam Osborne
Descrito por alguns como "um guarda-caça que virou ladrão de caça". Adam Osborne foi por muitos anos jornalista especializado em microcomputadores, antes de fundar sua própria empresa e produzir o primeiro computador portátil do mundo.