(Fonte: Micro Sistemas - Abril 1984)

  A GERAÇÃO RADIO SHACK

            "Se eu der um negócio desses de natal à minha mulher, ela vai pensar que eu fiquei maluco". Assim reagiu o Presidente da Radio Shack, Lou Kornfeld, ao lhe apresentarem o protótipo do primeiro computador pessoal comercializado com êxito no mundo, TRS-80 Modelo I, em 1976.
             As dúvidas e o ceticismo de Kornfeld, compartilhados por outros dentro da organização tinham, não obstante, sua razão de ser. Afinal, naquela época os computadores ainda eram vistos como máquinas complicadas, acessíveis apenas a um seleto grupo de iniciados no assunto. Como, então, poderia o computador transformar-se num produto de massa? Que utilidade real poderia oferecer aos seus compradores?
             Essa pergunta foi, inicialmente, difícil de responder, sobretudo pelo fato de que todo o software disponível naquele momento resumia-se na linguagem Tiny BASIC e um modesto jogo de Blackjack armazenado em fita cassete. Essas dificuldades, no entanto, não diminuíram o entusiasmo da equipe liderada por Don French, o homem que idealizou o TRS-80.
           
A primeira coisa a fazer para tornar o produto bem-sucedido no mercado, perceberam logo os idealizadores do Modelo I, seria escrever um manual capaz de ensinar aos iniciantes - de maneira simples e clara, mas ao mesmo tempo sem lhes insultar a inteligência - como operar o computador.     
           
Outro problema enfrentado é que na Radio Shack - gigantesca empresa do ramo de componentes e produtos eletrônicos - ninguém conhecia a fundo a linguagem BASIC. A solução foi contratar os serviços de um especialista, o Dr. David A. Lien, que relembra, em artigo publicado na edição de aniversário da revista 80 Micro em 1983, como nasceu o BASIC Nível 1: "Passamos (David Lien, Don French e Steve Leininger, outro integrante do projeto) o dia todo sentados àquela mesa redonda. Eu examinei uma lista exaustiva de palavras de BASIC e expliquei suas possibilidades. Dispúnhamos apenas de 4 K de ROM e tivemos, então, que decidir quais palavras incluir no interpretador BASIC. Parecia uma tarefa impossível, mas, no fim do dia, o BASIC Nível I era uma realidade".

           
O sucesso do Modelo I no mercado norte-americano - e logo a seguir em outro países - não tardou a vir, incentivando a Radio Shack a fazer diversos outros lançamentos que permitem à empresa, hoje, ostentar a maior e mais completa linha de produtos da indústria de microinformática, incluindo hardware, software e acessórios.

           
O BASIC Nível I evoluiu para o Nível II, bem mais completo e poderoso, e passou a equipar o Modelo II. Sistema de uso essencialmente comercial, com memória RAM de 32 ou 64 K, 32 caracteres especiais para gráficos comerciais, o Modelo II trabalha com até quatro drives de 8", face e densidade dupla (numa capacidade total de 2 Mb) ou, ainda, quatro disco winchester de 8,4 Mb cada.

           
Dentro dessa linha de sistemas grandes de aplicação comercial, a empresa lançou também o Modelo 16, com dois processadores: Motorola MC68000, de 16 bits e clock de 6 MHz, e Zilog Z80A,  de 8 bits e clock de 4 MHz.

          
Compatível em software com o Modelo II, o principal destaque desse modelo é a sua capacidade de processamento em modo multi-usuário, que lhe permite operar com até dois terminais de dados executados simultaneamente programas diferentes.

           
Em contraste com essas máquinas de grande capacidade - entre as quais temos ainda o Modelo 12, capaz de formar uma rede de automação de escritório composta de até 255 micros - a Radio Shack oferece os Pocket Computers, com tamanho de calculadora, mas desempenho de computador. O modelo PC-1 tem linguagem Pocket Computer BASIC, similar ao BASIC Nível, 11 KB de ROM e 1,9 KB de RAM.

           
Bastante maior, mas ainda de grande portabilidade, em virtude de suas reduzidas dimensões e baixo peso, o Modelo 100 é mais poderoso que os seus irmãos menores e incorpora característica que muitos sistemas de maior porte não tem tais como modem embutido. Sua memória vai até 32 K RAM, e o vídeo é de cristal líquido com matriz de 240 x 64 pontos. O equipamento dispõe ainda de interfaces paralela, serial e para cassete e, a exemplo dos PCs, tem memória permanente mantida por baterias.

           
No segmento de uso doméstico e lazer, a Radio Shack está presente com o Color Computer. O equipamento é fornecido em várias versões, com diferentes capacidades e aplicações, entre elas, a de funcionar como terminal de videotexto. A memória RAM vai de 4 a 32 K, enquanto que a ROM pode ser de 4 K, no caso de utilizar o color BASIC, ou 16 K, exigidos pelo Extended Color BASIC, que permite o uso de até quatro drives de 5 1/4".

           
Dentre esses modelos, no entanto, os mais populares são os I (250 mil instalados) e III (100 mil unidades vendidas nos dois primeiros anos).

           
Lançado em 1980 para substituir o modelo I (que teve, em conseqüência, encerrada a sua produção nos EUA), o Modelo III tem muita coisa em comum com o seu antecessor, tanto que é vendido em duas versões: a mais simples (e barata), que utiliza o BASIC Nível I de 4 K, do modelo anterior, e a mais sofisticada, com o BASIC Nível II de 16 K ROM.
 

 MODELOS  I e III:  UMA QUESTÃO DE COMPATIBILIDADE

             NA aparência externa, o Modelo III reúne num só gabinete diversos periféricos que eram separados no Modelo I, tais como o vídeo, drives, expansão de memória etc. Ambos utilizam o microprocessador Z80, mas as velocidades diferem: 1,77 MHz (Mod.I) contra 2,08 MHz (Mod. III). O tipo (monocromático, fósforo branco), formato (16 linhas de 64 caracteres) e resolução gráfica (128x48 pontos) do vídeo são os mesmo. De diferente, o Modelo III apresenta os caracteres minúsculos e um conjunto bastante amplo de caracteres alternativos (alfabeto japonês, letras gráficas, algumas figuras de jogos, etc.).
           
No teclado, também, nem tudo é igual : o Modelo I não tem bloco numérico separado, enquanto que no III as teclas SHIFT da direita e da esquerda podem ser encaradas como teclas  separadas. O Modelo I aceita duas unidades de cassete, com velocidade de transmissão de 500 bauds. O Modelo III permite apenas um cassete, mas a velocidade de transmissão , selecionada por software, pode ser de 500 ou 1500 bauds. Ambos "gravam os arquivos de dados em 500 bauds, mas os programas, em linguagem de máquina que utilizam o cassete como arquivo de dados, não serão compatíveis nos dois modelos, uma vez que os endereços das rotinas de cassete não são exatamente os mesmo.             O acesso a impressora, no Modelo I, é feito por um endereço de memória enquanto que no III é feito através de uma das portas do processador. Isso faz com que os programas em linguagem de máquina que têm as suas próprias rotinas de impressão (Scripsit, Edtasm, etc.), não utilizando, assim, as rotinas existentes na ROM do computador, não sejam compatíveis nos dois modelos. O Modelo III permite ainda que se cancele uma impressão, bastando apertar o BREAK; no Modelo I, o computador fica totalmente travado, restando apenas a possibilidade de apertar no RESET.
           
É nos discos que reside, talvez, a principal diferença entre os dois modelos. O Modelo I utiliza drives de densidade simples, com formatação de 35 trilhas de 10 setores de 256 bytes, num total de 89600 bytes. O Modelo III usa drives de densidade dupla, com formatação de 40 trilhas de 18 setores de 256 bytes, totalizando 184320 bytes, mais do que o dobro. É quase impossível trabalhar num Modelo I com apenas um drive, pois apenas o sistema operacional e o BASIC-Disco utilizam  quase todo o espaço disponível no disquete. Logicamente, o acesso aos discos é feito de modo bastante diferente. Dessa forma,  programas em linguagem de máquina que utilizam as rotinas do sistema para acessar os discos, serão certamente incompatíveis nos dois modelos.
           
No Brasil o quadro é um pouco diferente: em termos de programas em BASIC não com relação ao BASIC- Disco, a compatibilidade vai depender somente do sistema operacional  utilizando: o TRSDOS dos modelos I e III é bastante diferente, mas os outros sistemas - como o DOSPLUS, o LDOS, NEWDOS e MULTIDOS , por exemplo - oferecem virtualmente os mesmos comandos aos dois modelos. Já nos programas em linguagem de máquina, as dificuldades são maiores, pois grande parte dos endereços utilizados não coincidem nos dois modelos.
           
Em relação aos compatíveis nacionais, as diferenças entre os Modelos I e III são bem menores.  O DGT-1000, por exemplo, é um Modelo I, mas tem drives de densidade dupla e 40 trilhas, além do teclado numérico separado, enquanto que praticamente todos os modelos aqui fabricados apresentam caracteres minúsculos no vídeo.